Por que um autor independente deveria ser impedido de utilizar uma ferramenta que pode ajudá-lo a transformar sua imaginação em realidade?
Essa é uma pergunta que merece ser feita em meio à crescente discussão sobre inteligência artificial e produção artística.
Nos últimos anos, a IA passou de uma tecnologia distante para uma ferramenta acessível a milhões de pessoas. Escritores, designers, ilustradores, músicos, produtores audiovisuais, empresas e até grandes editoras começaram a experimentar suas possibilidades.
E, como acontece com toda tecnologia que provoca mudanças, surgiu também a resistência.
Parte dela é legítima. Existem questões importantes envolvendo direitos autorais, uso de obras para treinamento de modelos, remuneração de artistas, transparência e ética. Mas existe também uma outra reação que considero problemática: a ideia de que qualquer autor que utilize inteligência artificial estaria automaticamente produzindo uma obra inferior, ilegítima ou sem criatividade.
Eu discordo.
O autor independente não possui uma equipe inteira
Existe uma diferença enorme entre um grande projeto editorial e um autor independente.
Uma grande editora pode contar com profissionais especializados em diferentes etapas da produção: editores, revisores, designers, ilustradores, diagramadores, profissionais de marketing, produtores audiovisuais e equipes responsáveis pela divulgação.
O autor independente, muitas vezes, é tudo isso ao mesmo tempo.
- Ele escreve.
- Edita.
- Pesquisa.
- Revisa.
- Cria a capa.
- Pensa na divulgação.
- Administra redes sociais.
- Produz conteúdo.
- Procura leitores.
- Cuida da publicação.
E, muitas vezes, ainda precisa conciliar tudo isso com outro trabalho para conseguir pagar as contas. Então surge uma pergunta bastante simples: por que esse autor deveria ser impedido de utilizar ferramentas que podem reduzir seus custos e ampliar suas possibilidades?
Se ele não possui dinheiro para contratar um ilustrador para cada personagem, a inteligência artificial pode ajudá-lo a visualizar seu universo. Se não pode pagar uma equipe de produção audiovisual, ferramentas de IA podem ajudá-lo a criar um book trailer. Se precisa revisar um manuscrito extenso, pode utilizar ferramentas automáticas para encontrar erros, repetições e problemas de construção.
Se deseja criar pequenas animações para divulgar seu livro nas redes sociais, novamente a tecnologia pode abrir uma possibilidade que antes simplesmente não existia. Isso não deveria ser visto apenas como uma ameaça. Para o autor independente, pode ser uma forma de democratização.
A IA não escreveu necessariamente o livro
É importante separar as coisas. Utilizar inteligência artificial em determinadas etapas da produção de uma obra não significa necessariamente entregar a autoria da obra para uma máquina.
Um escritor pode escrever seu romance sozinho e utilizar IA posteriormente para auxiliar na revisão. Pode desenvolver pessoalmente seus personagens e utilizar uma ferramenta para criar referências visuais. Pode escrever seu próprio roteiro e utilizar IA para transformar algumas ideias em material audiovisual.
Nesse processo, a tecnologia está servindo como instrumento. A história continua sendo uma construção intelectual e criativa do autor.
Existe uma diferença ENORME entre dizer:
“A IA criou meu livro.”
e dizer:
“Eu escrevi meu livro e utilizei ferramentas de IA em determinadas etapas do processo.”
São situações completamente diferentes.
E a criatividade humana?
Talvez essa seja a principal preocupação de quem critica a utilização da IA. E, nesse ponto, existe algo que considero absolutamente válido defender: a criatividade humana não pode ser abandonada.
O autor precisa ter algo a dizer. Precisa construir personagens. Criar conflitos. Desenvolver mundos. Escolher palavras. Criar atmosferas. Tomar decisões narrativas. Desenvolver uma identidade.
Uma ferramenta pode ajudar em determinadas etapas, mas não deveria substituir a voz que torna uma obra singular. Afinal, milhares de pessoas podem utilizar exatamente a mesma ferramenta. Mas não possuem a mesma experiência de vida. Não possuem o mesmo repertório. Não possuem as mesmas referências. Não possuem as mesmas obsessões.
A ferramenta pode ser compartilhada. A visão não.
Uma ilustração não conta quem escreveu a história
Existe outro equívoco nessa discussão.
Imagine um autor que passou anos desenvolvendo um universo fantástico. Ele criou dezenas de personagens, escreveu centenas de páginas e construiu toda uma mitologia própria. Então utiliza uma ferramenta de IA para produzir uma ilustração conceitual de um personagem. Isso significa que a inteligência artificial escreveu sua história?
Venhamos e convenhamos, é lógico que não! Todo mundo sabe disso e não existe opinião que possa refutar isso.
Significa apenas que o autor utilizou uma ferramenta para representar visualmente algo que já existia em sua imaginação. Da mesma maneira, utilizar IA para criar um pequeno vídeo promocional não significa que a máquina passou a ser responsável pela obra literária.
O mesmo vale para revisão
Uma ferramenta pode apontar um erro. Pode sugerir uma alteração. Pode identificar uma repetição. Mas o autor pode olhar para aquela sugestão e dizer: “Não quero mudar.”
A ferramenta não conhece necessariamente a intenção literária por trás de cada frase. Um personagem pode falar de maneira gramaticalmente "errada" justamente porque aquela é sua personalidade. Uma repetição pode ser proposital. Uma palavra pode ter sido escolhida por causa de seu peso emocional.
Por isso, mesmo quando a inteligência artificial auxilia na revisão, a decisão editorial continua sendo humana.
O problema começa quando confundimos ferramenta com autoria
Não sou a favor da ideia de que o autor deveria simplesmente apertar um botão e entregar tudo para a inteligência artificial. Se alguém deseja escrever um livro, mas não quer desenvolver a história, os personagens, ou os conflitos, talvez seja necessário questionar qual é exatamente o papel dessa pessoa naquele processo.
Existe uma enorme diferença entre substituir a criatividade e ampliar a capacidade de execução.
Um autor pode ter uma ideia extraordinária e não saber desenhar. Pode ter uma história cinematográfica e não saber produzir um filme. Pode imaginar uma criatura fantástica e não ter habilidade para ilustrá-la. A tecnologia pode diminuir essas barreiras. E isso, para um autor independente, é extremamente relevante.
O curioso caso do purismo
Algumas pessoas tratam a utilização de inteligência artificial quase como uma falha moral, como se utilizar uma ferramenta tecnológica automaticamente diminuísse o valor do profissional, ou devesse ser proibido. Menciona logo a criação de leis em favor dessa proibição ou limitação, quer mais controle do Estado sobre nossas vidas, e agora, até na forma de produção de arte.
Contudo, ao fechar das portas, essas mesmas pessoas que atacam quem utiliza ferramenta de IA, também a utilizam em alguma parte do seu processo. Pode não ser no processo de criação, mas no processo de marketing de sua obra, dentre outro pontos. E isso é errado? Esse é o ponto! Não é errado coisíssima nenhuma.
Até porque ferramentas automatizadas já fazem parte de inúmeros processos profissionais: corretores ortográficos, softwares de edição, sistemas de recomendação. Economizar tempo não é sinônimo de falta de talento. Um profissional competente deveria ser avaliado pela qualidade do resultado final, não pelas horas desperdiçadas em tarefas repetitivas.
E as editoras?
A inteligência artificial também já faz parte da transformação tecnológica do mercado editorial. Dificilmente será possível simplesmente fingir que ela não existe. A discussão mais inteligente não deveria ser "IA é boa ou ruim?", mas sim: “Como podemos utilizar IA de maneira responsável e criativa?”
Quem deve julgar uma obra?
O autor deverá ser livre para decidir como deseja produzir sua obra. Quer fazer tudo à mão? Perfeito. Quer contratar uma equipe? Perfeito. Quer utilizar inteligência artificial ou combinar métodos tradicionais com ferramentas modernas? Também é uma ótima, e possível, escolha.
No final, existe alguém que realmente possui o direito de avaliar o resultado: o leitor. É o público que estabelece o verdadeiro julgamento de uma obra, decidindo se a narrativa prende, se a experiência valeu a pena e se compra o próximo livro.
Não precisamos transformar a literatura em um tribunal para determinar quem é o "artista de verdade que merece ter mais obras vendidas" e quem não é. Sua obra por si só deverá demonstrar esse mérito.
A ferramenta não determina o talento
Um martelo não transforma alguém em carpinteiro. Um computador não transforma alguém em escritor. E uma inteligência artificial também não transforma automaticamente alguém em artista.
Ferramentas não produzem talento por conta própria. Elas ampliam possibilidades. O problema não está necessariamente na ferramenta. Está na maneira como decidimos utilizá-la.
Talvez devêssemos parar de ter medo
A história da arte é também uma história de mudanças. Muitas novas tecnologias foram inicialmente tratadas como ameaças, mas a criatividade humana encontrou maneiras de incorporá-las.
Para o autor independente, a IA pode ser uma espécie de caixa de ferramentas. Uma forma de experimentar, criar, visualizar, produzir e divulgar. Isso não significa abandonar a autoria humana. Significa utilizar a tecnologia sem entregar a ela aquilo que nos torna criadores: a capacidade de imaginar o que ainda não existe.
SEM MONOPÓLIOS!
O futuro da literatura não deve pertencer a quem rejeita completamente a inteligência artificial. Também não acredito que deva pertencer a quem entrega absolutamente tudo para ela. Penso que deverá pertencer a quem consegue encontrar um equilíbrio.
Utilizar a ferramenta sem perder a própria voz. Criar com tecnologia sem deixar de ser criador. Economizar recursos sem abandonar a qualidade.
Uma obra não deveria ser julgada simplesmente pela ferramenta que ajudou a produzi-la. Ela deveria ser lida, experimentada, sentida e então julgada pelo que realmente importa: a história que conseguiu contar.
O leitor decidirá!