Muitas vezes você já deve ter pensado que zumbis podem ser reais, já os viu em vídeos e documentários espalhados pelo mundo; alegações, testemunhas oculares, vídeos que circulam na web, talvez, nada mais do que ficção, na verdade, uma forte simbologia do que enfrentamos no mundo moderno. A realidade pode ser ainda mais assustadora do que qualquer filme de zumbi. Pois existem, em nosso mundo, criaturas que se assemelham, de fato, aos mortos-vivos retratados em filmes e séries, só que esses são infectados por uma profunda recusa a abraçar a transformação, a morte do "velho eu" e o renascimento em uma nova versão de si mesmos.
Esses "zumbis" da existência não caminham em busca de cérebros, mas vagam por um mundo que não mais os compreende. São pessoas que se agarraram desesperadamente a um passado idealizado, a uma identidade que não mais ressoa com a realidade presente. A "morte" do seu "velho eu" - a perda de um emprego, o fim de um relacionamento, a mudança de cidade, a aposentadoria - foi recebida com terror, com uma recusa obstinada em se adaptar e evoluir.
Presos em um ciclo de nostalgia e autocomiseração, esses indivíduos se tornam cascas vazias, manadas de corpos ocos que vagam sem propósito. A energia vital que antes os impulsionava a viver, a amar, a criar, se esvaiu, dando lugar a um vazio existencial que se manifesta em apatia, pessimismo e um profundo desinteresse pelo futuro.
Seus olhos, outrora brilhantes, perdem o brilho, a curiosidade é sufocada e o entusiasmo se transforma em ceticismo amargo. A comunicação, que antes era uma ferramenta de conexão, se torna um monólogo repetitivo sobre um passado glorificado ou sobre as injustiças de um presente que eles não conseguem aceitar. A criatividade é reprimida, as paixões se apagam e a vida se resume a uma rotina monótona e desprovida de significado. A recusa em aceitar a metamorfose é a principal maldição desses "zumbis". A vida, como um rio caudaloso, exige movimento, adaptação e renovação constante. Negar essa dinâmica é como tentar deter o fluxo da água com as mãos: a resistência é inútil e, no final, o indivíduo é arrastado pela corrente, afogando-se em sua própria estagnação.
Na obra, Berenice e o mundo secreto de Brynjolf, os zumbis são os moradores da vila que impedem os forasteiros de voltarem e os prendem em suas masmorras para que eles possam servir de alimento e sacrifício aos deuses antigos. Esses aldeões estão apegados a um passado de guerras e submissão, vividos por ciclos infinitos, na trágica e remota vila amaldiçoada, omitindo para sempre a chance de experimentar a beleza da transformação e liberdade de seus espíritos fadigados e cheios de rancor. A tragédia desses seres se resume na perca da alegria de descobrir novas versões de si mesmos, a emoção de construir um futuro vibrante e cheio de possibilidades.
Ao se recusarem a "morrer" para o antigo e se abrir para o novo, esses indivíduos condenam a si mesmos a uma existência sombria, um lento definhar em um mundo que continua a evoluir, sem eles. É um lembrete sombrio de que a morte, em suas diversas formas, é inevitável. Porém, a maneira como a enfrentamos, a coragem com que abraçamos as mudanças e a capacidade de renascer das cinzas do nosso "velho eu" é que define a verdadeira essência da vida. A escolha entre viver plenamente ou se tornar um zumbi da existência, preso em um ciclo de sofrimento e estagnação, é inteiramente nossa.
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