Pelo bosque Seresvale, caminhava numa manhã de domingo solitária, a jovem Heaven. Era solstício de verão, os raios do fulgurante sol penetravam entre os espaços das árvores e o bosque era banhado com luz intensa, agraciado com os cantos dos pássaros, presença de pequenos bichos e noárs¹, que faziam o máximo possível para permanecerem censurados aos olhos da jovem transeunte.
Subitamente, como magia, entre o corredor de árvores que esboçavam um caminho a seguir para um lugar qualquer, a jovem avistou uma figura encapuzada em mantos negros, uma mulher, seus longos fios negros pareciam flutuar enquanto caminhava devagar até à jovem ruiva. Heaven paralisou aguardando a aproximação da figura misteriosa, a brisa que soprou, acalmando as expectativas da jovem, também mostrou-lhe que a presença repentina da dama de preto era uma manifestação de sua vontade, finalmente ela a encontrou, pois caminhava na escuridão.
A bela manhã de domingo representava apenas um vago e breve momento de paz na vida de Heaven, pois a destruição se espalhava à sua volta, era uma luta que ela não poderia vencer. Assim, a dama de preto materializou-se em seu caminho, dos confins das matas escuras da floresta sul, ela veio visitá-la e trazer esperança para seu coração cheio de amargura.
– Sábia maga vermelha, seu coração se enche de dúvida, está afogada em aflição. – a mão escondida sob a luva escura de veludo acariciava o rosto e tocava os cabelos cor de fogo da jovem.
– O inimigo bate à nossa porta, sedentos por nosso sangue, em breve tomarão o reino. A irmandade dos homens fracassou, seus irmãos os traíram e vão matá-los, sem nenhum remorso deles mesmos ou de um Deus. – falava a bela ruiva à sua companhia matinal de rosto ainda coberto, com um sorriso enigmático e voz que ecoava em sua mente.
– Os homens foram tolos, eles acreditaram na compaixão de seus inimigos, chegaram a um ponto de derrota iminente, pois eles preferiram se ajoelhar em vez de agirem contra eles. Eu sei, sinto sua ira ávida para erradicar esse desperdício de vida. Porém, conhece os teus inimigos ou não sabes o que enfrenta? – Heaven cessou a balbúrdia e gritaria dentro de si, finalmente seu coração se acalmou e ela iniciou sua projeção sobre o caos que a aguardava.
– Uma batalha selvagem, de princípio indubitável e fim incerto. Onde os homens são reduzidos a bestas indomáveis, o estigma de suas almas. –
– Dama, tenho medo, eu confesso. Não se vá, estenda sua mão para que eu possa descansar aqui em tua presença. –
– Tenha fé, maga. Acredite, quando precisar de mim, esteja certa de que eu não estarei longe. – as palavras da dama de preto ecoaram com tanta força na mente da maga ruiva que num baque fez-se distribuir por todo o seu corpo, enchendo seu coração de vida. Heaven manteve o silêncio e observou a dama se virar e iniciar sua caminhada para os confins de onde saiu, o olhar da maga ainda acompanhou seus passos pacatos até o capuz negro desaparecer.
As trombetas soaram anunciando as tropas do inimigo no horizonte, próximas aos portões do castelo da montanha. Heaven ficou ao lado do seu rei, aquilo continuava não sendo uma tarefa fácil, segurou sua mão firmemente ao observar seus fiéis homens no salão, novos corações encontrados pela sábia maga ruiva, cada um deles resgatados pelas palavras de Heaven inspiradas naquele encontro de um dia radiante, disposto a enfrentar o inimigo, a maga ruiva cravou dentro de si a certeza de que não estava sozinha.
As forças do reino de Unula sucumbiram e a guerra se estendeu por todas suas terras, o silêncio tomou conta de sua língua, mas na sua cabeça estavam as palavras sábias da dama de preto, elas jamais foram esquecidas, pois a maga bebeu profundamente delas, e sua coragem foi tomada como prêmio.
– É chegada a hora de um apocalipse em sua vida e na vida deles, um novo ciclo se abrirá em breve. A chama queimará com veemência e as cinzas voarão, sussurrando aos quatro ventos as boas novas da purificação que estará por vir, só então, o homem conhecerá a verdade. –
1: Palavra para denominar pequenos seres e sua vastidão de espécies e raças, podendo ser, duendes, fadas, gnomos de jardim, tardos, devas e até mesmo uma raça específica de troll.
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